A Evolução da Revolução

A ousadia traz incógnitas a um fabricante de automóveis. Pode ser um sucesso de vendas ou um verdadeiro fracasso. No princípio do século passado as maiores produtoras de automóveis na França eram a Renault, a Citroën e a Peugeot. Até a década de 30 os Renault com a frente em forma de escudo e o radiador recuado fazia a diferença entre várias empresas do mundo. Era uma frente diferente e ousada.

Depois foi a vez da Citroën ousar com o modelo Traction. A Peugeot também fez com o modelo 202/402 com seus faróis dentro da grade dianteira e para-lamas lisos. Na década de 40 outra vez a Citroën dava um passo à frente apresentando o popular 2CV. Nesta época, após a Segunda Grande Guerra Mundial a Peugeot, terceira em produção preferiu a tradição lançando o 203 em 1948.

Na década de 50 a Citroën voltou a atacar lançando o DS (saiba mais) em 1955. Quanto a Peugeot, o sedã 403 (acima) , também lançado no mesmo ano, tinha carroceria comportada apesar do desenho da famosa empresa italiana Pininfarina. Seu motor era dianteiro, longitudinal e tração traseira. Foi um sucesso e a receita se repetiu com o belo 404 (abaixo)

Mas a empresa de Sochaux precisava de uma nova arma aproveitando que a concorrência interna estava com produtos antiquados e sem genialidade no segmento de carros pequenos. Nesta época, em meados da década de 60, a Simca tinha seu compacto 1000 com quatro portas e motor e tração traseira. A Renault tinha o R8 (Conheça)  com a mesma configuração. E a Peugeot revolucionou ao lançar o sedã 204 em 1965 com tração dianteira, suspensão independente e motor transversal. O compacto agradou em cheio e a receita ia ser aprimorada para ser aproveitada num irmão maior.

Em 1967 começava o projeto D18 sobre a base do 204 (acima). Seria um carro maior, manteria a mesma distância entre-eixos, mas à frente e a traseira seriam maiores. Um dos objetivos era aumentar a capacidade do porta-malas. Um ano depois os primeiros esboços estavam nas pranchetas.

No Salão de Paris de 1969 era apresentado ao publico o Peugeot 304. Suas linhas modernas eram claramente inspiradas no modelo 204, mas eram mais retas, o carro era maior e destinado a concorrer em outro segmento. Seria o substituto dele já que o 204 havia sido lançado em 1965 e o projeto do menor carro da marca, o 104 , já estava em andamento.

A grade do radiador era preta e tinha frisos horizontais. Seus faróis eram hexagonais e abaixo destes luzes retangulares de direção como o irmão maior 504. Os críticos de plantão logo o apelidaram de “504 dos pobres”.

Os para-choques eram cromados e protegido por uma borracha contra pequenos impactos. Numa cidade como Paris, já na década de 70, achar vagas para estacionar não era tarefa fácil. E a pressa de estacionar dos franceses é famosa não se importando com pequenos e rápidos toques nos carros que estão entre. Sua área envidraçada era muito boa, se equipado com o opcional teto solar, a claridade interna era notável.

Os três sedãs mais modernos da linha, de tamanhos diferentes, traziam uma identificação de marca com a semelhança do conjunto da grade e do farol. Esta mesma tática era usada nas alemãs Opel e BMW. Ótimo e eficiente marketing. 

O novo familiar de três volumes, desenhado dentro do estúdio Peugeot, pela equipe de Paul Bouvot, media 4.14 metros de comprimento, 1,57 de largura e 1,41 de altura. Tinha estrutura da carroceria monobloco, seu peso era de 915 quilos e a distância de entre-eixos de 2,59 metros era a mesma do caçula 204. Visto de lado tinha certa semelhança com o Alfa Romeo Berlina lançado em 1968.

O motor dianteiro, em posição transversal , tinha quatro cilindros em linha e tinha bloco e cabeçote em liga de alumínio. Era moderno e seu deslocamento volumétrico era de 1.288 (76 x 71 mm) cm³. A potência era de 65 cavalos a 6.000 rpm. Ágil, seu torque máximo de 10,5 m.kgf aparecia a 3.750 rpm. Sua taxa de compressão era de 8,8:1 e era alimentado por um carburador da marca Solex. As válvulas e o comando eram no cabeçote e sua velocidade máxima era de 155 km/h. Seu cambio de quatro marchas tinha alavanca no assoalho e sua tração era dianteira.

Por dentro havia luzes de cortesia na frente que os franceses chamam de leitor de mapa. Seu painel era retangular. Ao centro velocímetro graduado até 180 km/h. Ladeando este tinha relógio de horas, nível do tanque de gasolina, temperatura do motor e voltímetro. Acima destes instrumentos, contornando toda a frente do painel havia um aplique de plástico imitando madeira. Era moda nos anos 70.

Os bancos confortáveis levavam cinco passageiros. Todas as portas tinham apoio de braço e o acabamento era correto.

Sua suspensão era independente nas quatro rodas. Na frente quanto atrás usava molas helicoidais e amortecedores hidráulicos. Na frente era triangular e atrás tinha braços oblíquos. Era um carro muito estável e a direção leve tinha 3,5 voltas de batente a batente. Os freios eram a disco na frente e a tambor atrás e estava equipado com pneus 145 SR 14.

Em 1970, no Salão de Genebra na Suíça, eram apresentados o cupê e o conversível. Usavam a mesma plataforma dos similares da linha 204, porém a frente e a traseira eram idênticas ao sedã. Nestes novos as lanternas traseiras eram quadradas e a luz de ré ficava separada do conjunto. No sedã eram retangulares agrupando luz de ré e direcional.

Ambos eram bonitos e atraentes, mas convenientes para dois passageiros adultos. Fizeram sucesso.

Neste mesmo ano chegava a perua completando a gama como era costume da Peugeot fazer uma linha completa. A tampa traseira tinha ótima, a capacidade de carga era boa e o estilo agradável.

Em 1971 a produção de todos os 304 iam para a unidade fabril de Mulhouse, no leste da França na região da Alsácia perto da fronteira com a Alemanha.

Um ano depois chegava a versão S destinada primeiramente ao cupê a ao conversível estendo-se depois ao sedã. O motor mantinha a mesma cilindrada, porém ganhava um carburador de corpo duplo, novos cabeçotes, coletores de admissão, escapamento duplo fazendo a potência passar a 75 cavalos, a velocidade máxima para 160 km/h e o 0 a 100 km/h em 14 segundos. Por fora, nas versões esportivas ganhava rodas de liga leve com desenho atraente. Agradou em cheio fazendo o público desprezar o antigo motor que continuava em produção.

Em 1972 foram tentar carreira nos Estados Unidos. Tinham faróis duplos circulares, sinalizadores laterais, maior numero de frisos cromados e rodas com desenho esportivo. Tanto o sedã quanto a perua, apesar das mudanças estéticas, tinham desenho discreto e não perderam o charme. Ficaram até interessantes, mas nesta época os alemães da Volkswagen e os japoneses ditavam as regras dos sub-compactos em terras americanas. Foi mais uma tentativa francesa de se impor.

Em 1974, já com cinco anos de mercado, enfrentava em território gaulês, o Citroën G Special 1220, o Simca 1100 e o Renault 12 TL. Na vizinha alemã o Audi 80 1300, o Ford Escort GLX 4 portas, o Opel Kadett 4 portas e dos Volkswagen Golf e Passat em suas versões básicas. Na Itália faziam-lhe frente o Fiat 124 Special T e na Inglaterra o Austin Allegro e o Sunbeam 1250 TC. Do Japão, já presentes no mercado europeu o Datsun Cherry 120 A e o Toyota Corolla.

Em 1975 o painel mudava completamente ganhando três mostradores circulares inclusive um conta-giros. O volante de dois raios passava a ser emborrachado assim como a parte superior do painel e tinha desenho mais agradável. Novos bancos dianteiros com apoios de cabeça estavam disponíveis para toda a linha. Estava mais agradável estar dentro dele. Por fora recebia novas lanternas traseira em formato vertical e passava a contar com pneus 155 SR 14.

Neste mesmo ano o cupê saia de linha após 60.186 unidades produzidas e pouco depois o conversível após 18.647. A medida não agradou a clientela fiel a marca, pois o único conversível disponível era o 504 e custava bem mais caro.

Para a perua e para a variante desta, a versão rústica “fourgonnette”, sem vidros laterais, fechado por chapas e com acabamento bem simples. Chegava em 1976 a versão diesel. Com quatro cilindros, também montado em posição transversal, o motor a óleo tinha 1.347 cm³ e 47 cavalos a 4.600 rpm. A velocidade final modesta de 130 km/h não incomodava já que os clientes que apreciavam esta motorização se importavam mais com a economia e resistência deste motor.

 

O Peugeot 304 saiu de linha em 1980 após 1.178.423 unidades produzidas, um sucesso em parceria com o 204 que atingiu quase o mesmo volume de vendas e juntos, entre 1967 e 1973, representaram 10 % do mercado francês. Em 1970 a dupla pequena era mais vendida que a linha 404/504. Foram substituídos pela linha 305 que começou a ser produzida em 1977.

Texto e montagem Francis Castaings. Fotos de divulgação e Peugeot Automobiles S.A.

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